No âmbito da Exposição “O Sorriso do Acanto”, patente na Basílica Paleocristã do Museu de Mértola Cláudio Torres, de 27 de janeiro a 28 de junho de 2026, realizou-se no dia 26 de junho, a Conversa “Um Acanto, um Cântaro e um Cantor – Ecos do Mediterrâneo Antigo Revolvido”, dinamizada pela autora Sara Domingos e com a participação de Luís Mendonça de Carvalho, Susana Gómez Martinez e Virgílio Lopes.
Sara Domingos contextualiza o tema da exposição e explicita o processo criativo que tem o acanto como ponto de partida. Esclarece que “uma das primeiras surpresas deste projeto foi perceber que observar plantas podia levantar tantas dúvidas como estudar fontes históricas. Muitas vezes os nomes permanecem, mas as correspondências botânicas nem sempre são claras. No meu caso, tudo começou quando me interroguei sobre a semelhança entre a representação tradicional do acanto e um verbasco que encontrei num caminho”. Reforça que “houve uma ideia que apareceu repetidamente durante esta investigação: a ideia de passagem. Quando cheguei a Mértola percebi que a própria Basílica Paleocristã é um lugar de passagem. Não pertence inteiramente ao mundo romano nem ao mundo medieval. É um testemunho de um momento em que diferentes tradições convivem, se cruzam e se transformam. Ao mesmo tempo, muitas narrativas sobre o Mediterrâneo continuam centradas na herança greco-romana. No entanto, quanto mais investigava, mais ligações encontrava no Mediterrâneo oriental e a outras geografias”.
Para concluir refere que “a certa altura a investigação começou a afastar-se do acanto e a aproximar-se das ligações que ele sugeria. Um dos exemplos mais marcantes foi o kantharus, uma taça muito presente no imaginário da Antiguidade e frequentemente representada com acantos. Ao seguir o percurso desta forma, percebi que a investigação me estava a levar para além dos limites habituais da Antiguidade Clássica. Surgiram ligações inesperadas ao sânscrito, ao árabe e a outras tradições culturais. Não como provas de uma origem comum, mas como ecos de ideias recorrentes ligadas à passagem, à ligação, ao estreitamento e à transformação. Ao longo deste percurso apercebi-me também de que muitas das ligações surgiam primeiro como intuições e só mais tarde encontravam apoio histórico ou arqueológico”.
Foram abordadas pelos participantes diversos aspetos ligados à natureza e à botânica, à história e arqueologia, à representação da natureza na arte e o seu simbolismo e à relação entre as transformações da sociedade e as artes. Entre as questões levantadas destacamos: onde acaba a observação da natureza e começa a construção cultural dessa natureza? Tendo em conta os vestígios arqueológicos em Mértola, o que mudou na forma como hoje entendemos a Antiguidade Tardia? Ainda faz sentido falar de influências orientais ou essa linguagem continua a refletir uma forma antiga de olhar para o Mediterrâneo? Que papel teve o mundo islâmico medieval na preservação, transformação e transmissão dessas heranças clássicas? Em que medida a arte contemporânea, em diálogo com o passado, pode funcionar como um dispositivo de mediação entre as peças do museu e os públicos?
Esta Conversa marcou o encerramento da Exposição “O Sorriso do Acanto”, que registou 1137 entradas. Um agradecimento a todos os intervenientes e, em especial, à Sara Domingos. Aguardamos o desenvolvimento de novos projetos, que valorizem o património e divulguem o acervo do Museu de Mértola Cláudio Torres.
Breves notas biográficas sobre os participantes:
Sara Domingos – Artista visual independente e autora da Exposição “O Sorriso do Acanto”. Desenvolve uma prática situada entre as artes plásticas, gráficas e têxteis, com especial atenção ao diálogo entre culturas (ver em www.sara-domingos.wixsite.com ).
Luís Mendonça de Carvalho – Biólogo, Professor Coordenador do Instituto Politécnico de Beja, fundador e diretor do Museu Botânico de Beja e titular da Cátedra UNESCO em Etnobotânica e Salvaguarda do Património de Origem Vegetal. A sua investigação centra-se na etnobotânica, no património de origem vegetal e nas relações culturais entre as comunidades humanas e as plantas.
Susana Gómez Martinez – Arqueóloga e Historiadora. Professora Auxiliar e Diretora do Departamento de História da Universidade de Évora; investigadora do CEAACP (Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património) e membro da Direção do Campo Arqueológico de Mértola. A sua investigação centra-se na arqueologia medieval e islâmica da Península Ibérica, com especial incidência em Mértola e nas sociedades do mundo islâmico medieval.
Virgílio Lopes – Arqueólogo, investigador e membro da Direção do Campo Arqueológico de Mértola. Investigador associado do CEAACP (Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património), participa há várias décadas nos projetos de investigação arqueológica desenvolvidos em Mértola, tendo integrado e coordenado diversas campanhas de escavação, incluindo os trabalhos realizados na Basílica Paleocristã. A sua investigação centra-se na arqueologia da antiguidade tardia e do período islâmico no sul de Portugal.





